Helena Prieto’s Blog

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Mundivisões : Abril 19, 2010

Filed under: ESR — helenaprieto @ 3:21 pm
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Pierre Lévy , em Cibercultura, reclama o discurso do continuum, a integração do novo, numa lógica de retorno às origens , do retomar das tradições antigas. A evolução faz-se por renovação desse continuuum. Ele renova-se através de técnicas como o sampling, mixing e remixing e da colagem da diversidade. Fazemos uno de pedacinhos. Por meio das novas TIC e também nelas estabelece-se uma unidade cultural, as diversas áreas do saber convergem, as diferentes culturas misturam-se num espaço único o ciberespaço, e de toda esta fusão e convergência, nascem por sua vez , caminhos novos a explorar. E isto é algo de novo em si, algo que a humanidade anteriormente nunca conseguiu realizar.

Há múltiplos caminhos de sentido e cada um de nós tem de procurar o seu e nessa procura construir o seu saber  – a sua arca de Noé – . Para isso, precisa dos outros, do colectivo humano  porque o conhecimento  é muito abrangente e a sua validade reside na inteligência colectiva. A cibercultura é um novo humanismo.  O indivíduo ou mais precisamente a inteligência colectiva,  está no centro deste mundo. Cabe-lhe preservar o conhecimento , como um legado cultural e passá-lo á próxima geração. O ciberespaço, é um espaço priviliegiado de realização humana, sendo a sua criação o reflexo da progresso humano. Há muito mais a ganhar nele do que a perder em termos de valorização cultural e da condição humana. O ciberespaço é uma oportunidade de realização. A questão está em sabermos aproveitá-la em proveito próprio, seleccionando o que interesse e deixando de fora o que não interessa, em suma construir a nossa arca de Noé, que somos nós mesmos e nosso mundo pessoal.  Nós fazemos parte desse continuum.

Jean Baudrillard ( 1929-2007), em Simulacros e Simulação, constata o fim do continuum.

O hiper real é um novo espaço onde as ligações antigas são cortadas. Procura entender o hiper real como um referente é uma tarefa vã. Os simulacros e simulações são invenções da humanidade para dar sentido ao que não tem sentido. Não são mentira, nem verdade são apenas.

Uma fotografia não refere o real ou uma verdade. Uma fotografia é apenas uma fotografia. Essa é a sua realidade e a sua razão de ser. Por isso ela não precisa de legenda. Assumir a legenda é assumir que se pretende fazer algo mais do uma fotografia e ai sim estamos perante um simulacro. Para Baudrillard , a fotografia é um meio ideia de fazer desaparecer a realidade porque o objecto nasce numa nova realidade autónoma.  Ou seja sempre que se pretende representar algo estamos perante um comportamento de falsidade, pois não se pode representar nada. Cada coisa é o que é. Cada ideia também. Assim, ao procurar representar as coisas, estamos sempre a criar novas realidades, porque ao serem representadas , as coisas, tornam-se outras. Isto não é necessariamente mau, nem bom. È uma constatação.

No mundo hiper real tudo vale por si próprio, sem referente, sem ponto de origem ou retorno. Um diploma é apenas um diploma e nada mais. O seu sentido transcendente perdeu-se , um diploma já não é um meio de atestar conhecimentos. Um holograma é uma imagem de luz e não a representação de alguém ou alguma coisa.

No mundo hiper real as funções já não têm conteúdo e isso é catastrófico porque “arrasta consigo a perda dos papéis, dos estatutos e das responsabilidades” ( pg 194)

O lado positivo disto é a consciência de que as coisas são o que são.  A mentira está em assumir que são outras coisas.

Mas então o que são as coisas? Na obra Simulacros e Simulações , o autor dá conta da sua interpretação dos vários fenómenos – a Disneylandia, os hologramas,  a publicidade, o dinheiro, os supermercados ,  os clones, as políticas, as guerras,o cinema, os museus  …. – mostrando a mentira, e a ausência  que há neles.

Ele mostra-nos a manipulação de que somos alvo, na nossa ingenuidade ao  atribuir significados a estes eventos. A leitura que fazemos – nós , as massas –  e a leitura que este autor faz serve de ilustração para explicar o hiperreal.

No fundo fica a ideia de que se nos enganamos é porque não conseguimos ainda perceber que as coisas são o que são e nada mais.!!! Tudo o resto é simulação ou simulcacro.

Mas nó vivemos num mundo de imagens. Ele porém não existe nelas. Por detrás das imagens qualquer coisa desaparece. As imagens mostram tudo , mas não há nada para ver. – è a ausência do mundo  que as imagens celebram, contudo elas criam uma linguagem imagética – uma poética das imagens.

As imagens em si não mentes, os simulacros e as simulações sim. Eles são uma fonte de enganos, mentiras e manipulações constantes exercidas pelos poderes sobre as massas.

Os meios de comunicação são a forma mais representativa de simulacros, “ são uma espécie de código genético que comanda a mutação do real em hiper-real”.

Por seu lado, Paul Virilio, vê o império das imagens como o agente destrutivo do real. As imagens vão substituindo gradualmente a nossa relação com o mundo real, distanciando-nos de nós mesmos.

Através das imagens uma nova realidade é criada, transmitida, orientada para objectivos de simulação e engano. O mundo é cada vez mais a sua representação e nessa representação tudo é possível.

A luz viva das transmissões anula distâncias territoriais, junta os tempos real e deferido (replay), num momento – o momento da imagem. Nele, os factos são desagregados pelos efeitos da interactividade das comunicações.

Porque vivemos cada vez mais aprisionados num mundo de imagens, perdemos a nossa humanidade e os nossos pontos orientadores – tempo, espaço, relevo, território … –

A inércia polar começou no momento em que inventamos tecnologia que anula a interacção do corpo  – ( corpo humano ) com as dimensões dos espaça e do tempo. Tanto através dos meios de transporte como através das tecnologias da comunicação, fizemos o mundo vir até nós e não nós irmos até ao mundo. Neste processo, confinámo-nos a um espaço cada vez mais pequeno , actualmente o nosso ecrã de computador ou telemóvel. Tornamo-nos  cada vez mais actores de um grande filme.

                   “ a conversão em filme parece ser o nosso destino comum. “ pag. 41

E fazemos tudo ao contrário. Usamos a velocidade para estar cada vez mais imóveis. Os transportes deslocam-se a velocidades cada vez maiores e nós dentro deles estamos parados, Jogamos jogos  através de simulações – os jogos de futebol , de golfe interactivos, por exemplo.

Não fazemos as coisas realmente, fazemos simulações das coisas – visitamos um museu ou uma galeria de arte através de um vídeo interactivo de um espaço virtual;

Nesta cultura de imagens, generalizámos o não lugar quer física ( criação de espaços miniatura  a simular ambientes ou países)  quer virtualmente ( ambientes 3D, visitas virtuais…).

 Em suma, vivemos uma cultura de “des-realização generalizada” que é “consequência da nova iluminação da realidade sensível”.

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